Resumo e Conclusões
Flávio Bolsonaro (PL) chega ao 2º turno com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula (PT): 2,22 milhões de votos e 1,87 p.p. de vantagem, a menor para o 1º colocado das três eleições analisadas (16,75 p.p. em 2018 e 5,23 p.p. em 2022). Os 9,3 milhões de votos dados aos candidatos eliminados decidirão a eleição, e 98% deles foram para candidatos de centro-direita e direita, quase todos para Cury, Renan Santos, Caiado e Zema.
Estimamos que os eliminados de direita transferiram 67% (2018) e 80% (2022) dos votos ao finalista de direita e 19% e 15% ao PT. O maior avanço de um finalista sobre o eleitorado do campo adversário foi o de Jair Bolsonaro sobre os eleitores de Ciro Gomes em 2022 (43%). Para virar, Lula precisa de 61% dos votos dos eliminados de direita, se todos eles escolherem um dos dois finalistas. No cenário-base, Flávio venceria com 52,0% dos votos válidos (entre 50,3% e 53,4% em cinco cenários).
O grupo de fato em disputa é o eleitor de Augusto Cury, de perfil territorial neutro; Caiado e Zema têm eleitorado tipicamente de direita e Renan Santos fica em posição intermediária. Mesmo com todos os votos de Cury, Lula ainda precisaria de 37% dos demais. Na abstenção, o risco se concentra no Norte, e só sete UFs, com 16% do eleitorado, terão 2º turno para governador (63% em 2018 e 53% em 2022).
- A pergunta. O que os resultados oficiais das três últimas eleições presidenciais permitem antecipar, Estado a Estado, sobre o 2º turno de 25Out26 – e quanto dessa leitura depende da abstenção e do destino dos votos dos candidatos eliminados?
- Os dados. Votação e comparecimento do Portal de Dados Abertos do TSE (2018 e 2022), por UF e por município-zona (6.240 unidades com os dois turnos), e a totalização oficial do 1º turno de 2026 (05Out26, 100% das seções). Os totais nacionais reproduzem os números oficiais.
- As convenções. 1T e 2T designam os turnos (1T26 = 1º turno de 2026). "Espólio" são os votos válidos dos candidatos eliminados no 1T; "conversão" é o ganho de votos de cada finalista entre o 1T e o 2T, em proporção ao espólio; pode superar 100% ou ser negativa, porque o ganho também reflete os eleitores que entram ou saem dos votos válidos entre os turnos. O campo político de cada candidato segue a posição do seu partido na classificação de Bolognesi, Ribeiro e Codato (2023), em três grupos: esquerda e centro-esquerda, centro, e centro-direita e direita. Um candidato a governador é "aliado" quando o PT ou o partido de Bolsonaro (PSL em 2018; PL em 2022 e 2026) consta da sua coligação registrada no TSE.
- Os limites. A nota usa apenas resultados eleitorais: não incorpora pesquisas, apoios declarados nem a campanha do 2º turno. Os padrões entre turnos vêm de duas eleições, e as transferências de votos são estimadas com dados agregados (município, zona e UF), não com o comportamento individual do eleitor. Até a elaboração desta nota, não havia dados municipais completos para 2026; o perfil dos eliminados foi medido por UF.
- O roteiro. As seções 1 a 8 seguem os itens da análise: votos no 1º turno; votos no 2º turno e afinidade do espólio; abstenção entre os turnos; mapa da abstenção; abstenção e 2º turno para governador; presidente e governador; ganhos e perdas por Estado; e projeção de 2026. O simulador por Estado é a planilha que acompanha a nota.
1. O 1º turno em 2018, 2022 e 2026
Os resultados dos primeiros turnos de três eleições (2018, 2022 e 2026) contam a história de uma disputa que se estreitou e se concentrou. Em 2018, Jair Bolsonaro abriu 16,75 p.p. sobre Fernando Haddad e um quarto dos votos válidos (24,69%) ficou com outros candidatos, a metade deles com Ciro Gomes. Em 2022, Lula liderou por 5,23 p.p. e o espólio encolheu para 8,37%. Em 2026, Flávio Bolsonaro obteve 56,10 milhões de votos (47,03%) e Lula, 53,88 milhões (45,16%), com 7,81% para os demais – Augusto Cury (2,89%), Renan Santos (2,24%), Ronaldo Caiado (2,18%), Romeu Zema (0,27%) e seis candidatos que somam 0,22%.

Em relação ao 1T22, Lula perdeu 3,38 milhões de votos e 3,27 p.p., enquanto Flávio Bolsonaro superou em 5,03 milhões de votos e 3,83 p.p. a votação de Jair Bolsonaro. Em votos, a perda de Lula se concentra no Sudeste e no Sul: 985 mil em São Paulo, 614 mil em Minas Gerais, 512 mil no Rio Grande do Sul e 309 mil no Paraná; ele só ganhou votos em oito UFs, todas pequenas ou médias. Flávio superou a votação do pai em 26 das 27 UFs (a exceção é o Distrito Federal), com os maiores ganhos em São Paulo (682 mil), Minas Gerais (538 mil), Bahia (395 mil) e Ceará (379 mil). Em participação, o recuo de Lula ocorreu nas cinco regiões: 5,5 p.p. no Sul, 5,2 p.p. no Centro-Oeste, 3,0 p.p. no Nordeste, 2,9 p.p. no Sudeste e 2,4 p.p. no Norte. Flávio liderou em 15 UFs e Lula em 12 – no Amapá, por 225 votos.

2. O 2º turno em 2018 e 2022: quem somou votos, e de onde
Nas duas eleições o líder do 1º turno venceu, mas com a vantagem reduzida. Em 2018, Bolsonaro passou de 49,28 para 57,80 milhões de votos (55,13% dos válidos) e Haddad de 31,34 para 47,04 milhões (44,87%). Em 2022, Lula passou de 57,26 para 60,35 milhões (50,90%) e Bolsonaro de 51,07 para 58,21 milhões (49,10%), 2,14 milhões de votos atrás de Lula.

O 2º colocado ganhou mais votos do que o líder nos dois casos – 15,70 milhões de Haddad contra 8,52 milhões de Bolsonaro em 2018; 7,13 milhões de Bolsonaro contra 3,09 milhões de Lula em 2022 –, mas isso diz mais sobre a composição do espólio do que sobre a posição de largada. A migração de votos segue a afinidade política. Em 2018, 13,1 dos 24,7 p.p. do espólio eram de candidatos, à época, considerados de esquerda e centro-esquerda (12,5 p.p. só de Ciro Gomes), 1,0 p.p. de centro (Marina Silva) e 10,6 p.p. de centro-direita e direita (Alckmin, Amoêdo, Meirelles, Alvaro Dias e Daciolo). Em 2022, 3,1 p.p. eram, à época, avaliados como de esquerda (quase tudo de Ciro) e 5,2 p.p. de centro-direita e direita, dos quais 4,2 p.p. de Simone Tebet. Em cada eleição, o 2º colocado cresceu mais porque o seu campo tinha mais votos órfãos (candidatos eliminados).

O ponto central, para antecipar o resultado, é a capacidade de cada finalista de somar votos no próprio campo e de trazer votos de outro perfil. Para medi-la, usamos a votação dos dois turnos em 6.240 municípios-zona e estimamos, por mínimos quadrados com as taxas restritas ao intervalo de 0% a 100%, quanto de cada grupo de eliminados foi para cada finalista. Observaram-se três regularidades: 1) a direita converte bem o seu campo – 67% em 2018 e 80% em 2022; 2) o PT converteu 91% do campo da esquerda em 2018, mas só 56% em 2022, quando 43% do eleitorado remanescente de Ciro foi para Bolsonaro – o maior avanço sobre o campo adversário nas duas eleições; 3) o PT obteve 19% e 15% dos votos dos eliminados de direita. Em 2018, Haddad somou mais votos do que havia no seu campo graças a essa fatia; em 2022, Lula somou menos do que o seu campo oferecia.
O teste do eleitor de Simone Tebet em 2022
A hipótese é a de que o voto em Tebet em 2022 era anti-Lula e, por isso, não seguiu o apoio dela a Lula no 2º turno. A votação de Tebet cresce com o voto em Bolsonaro em 2018: foi de 1,8% nos municípios mais petistas e de cerca de 5% nos três quintos mais bolsonaristas; 82% dos seus votos vieram de municípios em que Bolsonaro vencera o 2T18, contra 67% do eleitorado como um todo, e a correlação entre as duas votações nos 5.570 municípios é de 0,65. A votação de Ciro, em contraste, quase não varia entre esses grupos. No 2º turno de 2022, estimamos que de 74% a 80% dos votos de Tebet foram para Bolsonaro e de 13% a 20% para Lula. Os dados confirmam a hipótese no agregado, com uma ressalva: em São Paulo, de onde veio um terço dos votos de Tebet, ela foi mais votada onde Bolsonaro era mais fraco (correlação de –0,44 dentro do Estado), e a estimativa, de ajuste fraco, aponta maioria para Lula.
O perfil territorial como indicador de migração
Onde um candidato foi votado dá indicação do perfil do seu eleitor. Para cada eliminado, calculamos a inclinação territorial – o voto de direita para presidente nas UFs em que ele foi mais votado, menos a média nacional – e a correlação da sua votação com a da direita para presidente e para governador. Nos 11 eliminados relevantes de 2018 e 2022, cada ponto de inclinação acrescenta 6 p.p. à parcela transferida ao finalista de direita (R² = 0,70, com cada candidato ponderado pela sua votação; sem ponderação, 4 p.p. e R² = 0,34). Ciro em 2018 (inclinação de –2,4 p.p.) transferiu 11%; Alckmin (+6,3) e Amoêdo (+8,6), cerca de dois terços; Alvaro Dias (+8,9), 86%.

Aplicado a 2026, o indicador separa os quatro principais eliminados. Caiado (+4,3 p.p.; 12,3% dos votos válidos de Goiás) e Zema (+4,2 p.p.) têm eleitorado tipicamente de direita, com transferência prevista de cerca de 60% para Flávio e 30% para Lula. Renan Santos (+2,5 p.p.) fica em posição intermediária (49% e 44%). Augusto Cury (+1,0 p.p.) tem eleitorado territorialmente neutro, espalhado de modo parecido com o do país – perfil entre o de Ciro em 2022 (–0,9 p.p.) e o de Meirelles em 2018 (+2,1 p.p.) –, e a relação histórica aponta 39% para Flávio e 56% para Lula. A correlação com a direita nas eleições para governador conta a mesma história: 0,41 para Caiado, 0,28 para Zema, 0,21 para Renan Santos e 0,02 para Cury. O indicador também capta a urbanização – por isso a esquerda nanica aparece com inclinação positiva na Tabela 3 –, razão pela qual o cenário-base da seção 8 o combina com o campo político do partido.
3. A abstenção entre o 1º e o 2º turno
Em 2018 a abstenção subiu de 20,33% para 21,30% (+0,97 p.p., ou 1,43 milhão de eleitores a menos nas urnas) e os brancos e nulos passaram de 8,79% para 9,57% do comparecimento: aparentemente, o eleitor sem candidato se afastou. Em 2022 ocorreu o inverso: a abstenção caiu de 20,95% para 20,58% (–0,36 p.p., 570 mil eleitores a mais) e os brancos e nulos ficaram praticamente estáveis (de 4,41% para 4,59%). O 1º turno de 2026 teve a maior abstenção entre os três primeiros turnos, 21,08%, abaixo apenas do 2T18 nas cinco votações, com 4,77% de brancos e nulos.
A diferença entre os dois anos é coerente com o tamanho do espólio e com a competitividade: em 2018 havia 26,4 milhões de votos sem candidato no 2º turno e uma vantagem larga do líder; em 2022, 9,9 milhões e uma disputa aberta. O 2º turno de 2026 se parece mais com o de 2022 nos dois aspectos: espólio de 9,3 milhões de votos e vantagem ainda menor, mas, como mostra a seção 5, com menos disputas estaduais para sustentar o comparecimento.

4. O mapa da abstenção por Estado
A geografia da abstenção muda do 1º para o 2º turno. No 1º turno de 2026, as taxas mais altas ficaram no Centro-Oeste e no Sudeste – Mato Grosso do Sul (23,9%), Rio de Janeiro (23,3%), Minas Gerais (22,8%) e São Paulo (22,5%) – e as mais baixas no Nordeste e em parte do Norte: Ceará (15,5%), Roraima (17,1%), Piauí (17,2%) e Sergipe (17,3%). Mato Grosso e Rio de Janeiro estão entre as cinco maiores taxas nos três primeiros turnos; Rondônia e Alagoas, nos de 2018 e 2022. No 2º turno, o Norte sobe para o topo: o Acre chegou a 27,1% em 2018 e a 28,4% em 2022, e o Amapá a 27,2% em 2022. No Gráfico 7, os primeiros turnos estão na coluna da esquerda, um abaixo do outro, e cada 2º turno ao lado do respectivo 1º.
O 1T26 trouxe uma mudança relevante em relação ao 1T22: a abstenção caiu no Norte (de 20,9% para 19,4%) e no Nordeste (de 19,5% para 18,4%) e subiu no Sul (de 19,3% para 20,5%), no Sudeste (de 22,0% para 22,7%) e no Centro-Oeste (de 21,3% para 21,7%). Em outras palavras, o comparecimento melhorou no Nordeste, a base de Lula, e no Norte, e piorou no Sul, no Sudeste e no Centro-Oeste, onde Flávio é mais forte – e, ainda assim, Lula perdeu participação nos votos válidos nas cinco regiões.

5. A abstenção depende de haver 2º turno para governador?
Em 2018, a abstenção subiu em média 1,85 p.p. nas 14 UFs com 2º turno para governador e 2,17 p.p. nas 13 sem; em 2022, recuou 0,09 p.p. nas 12 com disputa estadual e subiu 1,21 p.p. nas 15 sem. A diferença tem sempre o mesmo sinal, mas não é estatisticamente significativa na comparação simples de médias. Controlando o ano e a Região Norte, o efeito estimado é de –0,88 p.p.; sem as UFs do Norte, cai para –0,26 p.p.; comparando a mesma UF nos dois anos, –0,32 p.p. A leitura prudente é a de um efeito real, porém modesto: entre 0,3 e 0,9 p.p. a menos de abstenção.
No Norte a abstenção subiu, em média, 4,6 p.p. em 2018 e 3,4 p.p. em 2022 – e mais nas UFs da região sem disputa estadual (6,5 e 4,4 p.p.) do que nas que tinham 2º turno para governador (3,8 e 0,9 p.p.). Há ainda um efeito colateral: onde há 2º turno para governador, os brancos e nulos para presidente crescem 2,4 p.p. a mais do que nas demais UFs. A disputa estadual leva às urnas um eleitor que, sem ela, ficaria em casa – mas parte dele não escolhe um candidato a presidente. Para 2026, só sete UFs, com 16% do eleitorado, terão 2º turno para governador (Acre, Amazonas, Distrito Federal, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins), contra 63% do eleitorado em 2018 e 53% em 2022.

6. Presidente e governador no 1º turno: o voto anda junto?
A correlação, entre as UFs, da votação do candidato do PT a presidente com a dos candidatos a governador que tinham o PT na coligação foi de 0,72 em 2018, 0,62 em 2022 e 0,77 em 2026. No campo oposto, a correlação entre o voto em Bolsonaro e o voto nos candidatos a governador coligados com seu partido era de 0,26 em 2018 – quando a onda presidencial passou por fora das estruturas estaduais –, subiu para 0,56 em 2022 e para 0,59 em 2026.
A coligação formal, porém, subestima o campo da direita nos Estados. Quando se somam aos coligados com o PSL ou o PL os candidatos de partidos de centro-direita e direita que não tinham o PT na coligação – caso de Ronaldo Caiado em Goiás em 2022, eleito pelo União Brasil sem o PL –, a correlação com o voto em Bolsonaro sobe para 0,79 em 2018, 0,68 em 2022 e 0,77 em 2026 (terceira linha do Gráfico 9). Essa direita ampliada teve, na média das UFs, 58% dos votos válidos para governador em 2018, 65% em 2022 e 67% em 2026; cada 10 p.p. a mais para ela em um Estado correspondem a cerca de 5 p.p. a mais para o candidato da direita a presidente.
Os primeiros colocados para governador mostram a mesma tendência. Em 2018, só 4 dos 27 líderes estaduais tinham o PSL na coligação e 14 não tinham nem PT nem PSL; em 2026, 15 têm o PL, 6 têm o PT e 6 não têm nenhum dos dois. Em 18 das 27 UFs, o líder para governador é aliado do candidato a presidente mais votado no Estado; em três há voto cruzado (Alagoas, Amapá e Pará, onde o líder estadual tem o PL na coligação e Lula ficou à frente). Dos 20 governadores eleitos já no 1º turno, 10 têm o PL na coligação, 5 têm o PT e 5 nenhum dos dois.
Alinhamento não significa votações iguais. Em São Paulo, Tarcísio (62,7%) ficou 10,7 p.p. acima de Flávio (51,9%), e em Mato Grosso do Sul Eduardo Riedel ficou 8,5 p.p. acima; na Bahia e no Ceará ocorreu o inverso, com Lula cerca de 10 p.p. acima de Jerônimo Rodrigues e de Elmano de Freitas, e no Paraná Flávio (59,9%) superou Sergio Moro (50,1%). Nas sete UFs com 2º turno estadual, três opõem diretamente um aliado do PT a um aliado do PL (Amazonas, Distrito Federal e Rio de Janeiro).

7. Quem ganhou e quem perdeu votos entre os turnos, por Estado
Em 2018 os dois finalistas ganharam votos em todas as UFs, e Haddad ganhou mais votos do que Bolsonaro em 24 das 27. Em 2022 o quadro foi o oposto: Bolsonaro cresceu em todas as UFs (de 2,9% em Roraima a 18,6% no Ceará) e mais do que Lula em todas elas; Lula perdeu votos em termos absolutos no Acre, no Amazonas, no Amapá e em Roraima – três deles (Amapá, Acre e Roraima) são os Estados em que a abstenção mais subiu. Apesar dessas oscilações, a ordem entre os dois finalistas em cada Estado quase não muda entre os turnos: houve uma única virada em 2018 (Tocantins) e uma em 2022 (Amapá).

A conversão do espólio – votos ganhos por cada finalista em proporção aos votos dos eliminados na UF – varia muito entre os Estados, para os dois lados. Em 2018, o ganho de Haddad foi de 11% do espólio (Acre) a 102% (Pernambuco) e o de Bolsonaro de 14% (Maranhão) a 51% (Paraná); em 2022, o de Lula foi de –21% (Acre, onde perdeu votos) a 52% (Rio Grande do Norte) e o de Bolsonaro de 27% (Roraima) a 107% (Mato Grosso). O indicador supera 100% quando o ganho não vem só dos eliminados: em Pernambuco, em 2018, os votos brancos e nulos caíram 250 mil entre os turnos e os votos válidos subiram 234 mil; Haddad ganhou 989 mil votos e Bolsonaro, 216 mil, contra 971 mil votos dos eliminados. Cada finalista converte mais onde já é mais forte. A existência de 2º turno para governador, por si, não muda a conversão (Gráfico 11): em 2022, Bolsonaro converteu em média 68% nas UFs com disputa estadual e 64% nas demais; Lula, 20% e 22%.
O que faz diferença é quem está no governo estadual. O candidato do PT converteu mais onde um aliado foi eleito governador já no 1º turno (83% em 2018; 36% em 2022); onde um aliado disputava o 2º turno estadual sem um adversário bolsonarista, isso ocorreu em 2018 (65%), mas não em 2022 (28%, abaixo do resultado nacional). Bolsonaro converteu mais onde havia um aliado seu no 2º turno estadual em 2022 (80%). Os grupos são pequenos, de 2 a 7 UFs. Em uma regressão da parcela do espólio capturada pelo candidato do PT, que controla o ano e a força do PT no Estado, o efeito do governador aliado eleito no 1º turno é de 10 p.p. (p = 0,003) e o de um aliado no 2º turno estadual, de 6 p.p. (p = 0,03); para os aliados de Bolsonaro, o resultado depende da especificação e não é conclusivo. Essa relação é usada na seção 8 para distribuir a projeção entre os Estados, com a ressalva de que os governadores aliados do PT se concentram no Nordeste e parte do efeito pode ser regional.

8. Projeção do 2º turno de 2026
Em 2018, Bolsonaro precisava de 4,0 p.p. para chegar a 50%, tinha 10,6 p.p. no seu campo e ganhou 9,1; Haddad precisava de 20,7, tinha 13,1 (mais 1,0 de centro) e ganhou 15,6. Em 2022, Lula precisava de 1,6, tinha 3,1 e ganhou 2,5; Bolsonaro precisava de 6,8, tinha 5,2 e ganhou 5,9. Nos dois casos, o perdedor precisava de mais votos do que havia no seu campo – teria de avançar sobre o campo adversário – e o vencedor não.

Em 2026 a assimetria é a maior da série. Flávio precisa de 3,0 p.p. e tem 7,6 p.p. de espólio no seu campo: basta-lhe converter 39% dele. Lula precisa de 4,8 p.p. e tem 0,2 p.p.: se todos os eleitores dos eliminados de direita escolherem um dos dois finalistas, precisa de 61% deles; de modo geral, precisa de uma vantagem de 22 p.p. sobre Flávio dentro desse grupo. Em 2018 e 2022, o PT obteve 19% e 15% desse campo, contra 67% e 80% do adversário, e o maior avanço de um finalista sobre o campo adversário, tomado em conjunto, foi de 43% (de Jair Bolsonaro). Mesmo que todos os eleitores de Cury votem em Lula, ele ainda precisará de 37% dos demais. Em todos os 2ºs turnos presidenciais desde 1989, o líder do 1º turno venceu.
O modelo de projeção tem três passos, aplicados a cada UF: (i) transferência dos votos de cada eliminado segundo um cenário; (ii) variação da abstenção de +0,8 p.p., com 3,6 p.p. adicionais no Norte e 0,9 p.p. a menos onde há 2º turno para governador (seção 5); (iii) repartição dos eleitores que entram ou saem na proporção do voto de cada UF. Os cenários vêm das duas fontes de evidência da seção 2. O campo político aplica aos quatro eliminados de direita as taxas de 2022 (80% para Flávio, 15% para Lula) ou de 2018 (67% e 19%). O perfil territorial aplica a cada um a taxa prevista pela inclinação do seu eleitorado. O cenário-base é a média dos dois. Um quinto cenário, de estresse, supõe que Lula avança sobre o centro e a direita muito além do observado.

No cenário-base, Flávio Bolsonaro tem 52,0% dos votos válidos e Lula 48,0%, uma diferença de 4,7 milhões de votos: Flávio soma 4,8 milhões aos votos do 1º turno e Lula, 2,3 milhões. A faixa vai de 53,4% (campo político com as taxas de 2022) a 50,3% (cenário de estresse); no cenário que usa apenas o perfil territorial, o mais favorável a Lula entre os baseados em evidência, Flávio tem 51,1%. O método alternativo – somar à margem do 2T22 em cada UF a variação da margem entre o 1T22 e o 1T26 –, que não usa nenhuma premissa de transferência, chega a 52,6%. Mesmo que todos os eleitores de Cury votassem em Lula, mantido o restante do cenário-base, Flávio teria 50,4%.
A conversão é calculada por UF. Em cada cenário, as taxas por eliminado são aplicadas aos votos que ele teve em cada Estado, e o resultado nacional é a soma das 27 UFs e do exterior. Além disso, as taxas são deslocadas em cada UF a favor de Lula onde ele é mais forte e onde há governo estadual aliado (seção 7). Testamos dois caminhos alternativos: substituir esse deslocamento pelo desvio histórico da própria UF em 2018 e 2022, e estimar as taxas dentro de cada UF com os dados municipais. O resultado nacional quase não muda no primeiro (52,0%) e cai 0,6 p.p. no segundo (de 53,0% para 52,5% no cenário de campo político), sobretudo por São Paulo, onde o eleitor de centro-direita se divide mais (53% para a direita e 35% para o PT, contra 74% e 17% no país). Nenhum Estado muda de líder.

Por Estado, o cenário-base tem Flávio à frente em 16 UFs e Lula em 11. A única mudança de liderança em relação ao 1º turno é o Amapá, compatível com a regularidade histórica de uma virada estadual por eleição (no cenário de perfil territorial, nem essa ocorre). Os Estados mais apertados são Amapá (Flávio +2,2 p.p.), Amazonas (Lula +2,5 p.p.) e Pará (Lula +4,2 p.p.); em Minas Gerais, a vantagem de Flávio passa de 4,9 para 7,6 p.p. Em votos, a margem de Flávio vem do Sudeste (7,0 milhões, dos quais 4,2 milhões em São Paulo), do Sul (5,6 milhões) e do Centro-Oeste (2,6 milhões); a de Lula, do Nordeste (11,1 milhões).
Conclusão
Os resultados oficiais colocam Flávio Bolsonaro como favorito condicional para 25Out26. Ele lidera por pouco, mas praticamente todo o espólio pertence ao seu campo político, e três abordagens – as taxas de transferência por campo estimadas com dados municipais, o perfil territorial dos eliminados e a variação observada entre os 1ºs turnos de 2022 e 2026 – convergem para algo entre 51,0% e 53,4% dos votos válidos. Para virar, Lula precisa fazer o que nenhum finalista fez nas duas últimas eleições: conquistar a maioria dos votos do campo adversário.
Três variáveis merecem acompanhamento até o 2º turno. A primeira é o eleitor de Augusto Cury, o único grande grupo com perfil territorial neutro: é onde Lula tem mais a ganhar, mas não basta. A segunda é a conversão dos votos de Caiado, Zema e Renan Santos por Flávio: abaixo de cerca de 40% no conjunto do campo, a eleição se abre. A terceira é a abstenção no Norte, onde costuma subir vários pontos e onde Amapá, Amazonas e Pará estão entre os Estados mais apertados; a evidência de 2018 e 2022 é de que governadores aliados já eleitos ajudam a converter o voto órfão, e em 2026 há dez eleitos no 1º turno com o PL na coligação e cinco com o PT.



