O governo tem razão de estar preocupado com a situação financeira do brasileiro, principalmente porque o tema tem forte apelo eleitoral. A estratégia é tentar aliviar o bolso dos mais pobres através do programa “Desenrola”. A pergunta que fica é: quem vai desenrolar o próprio governo? A resposta: você.
Parte relevante da deterioração do mercado de trabalho, ocorrida ao longo de 2025, esteve relacionada à perda de empregos ocorrida no setor público. A média mensal de 3 mil vagas adicionadas por mês em um passado recente (+37 mil somente em 2024) se transformou em uma destruição de 20 mil vagas na mesma base de comparação, quando tomados os últimos 12 meses. (Ver Gráfico 2).
Ainda não incorporando o período posterior ao choque do petróleo, os dados referentes às contas externas mostram que o Brasil está bem-posicionado para atravessar a crise internacional. Primeiro porque o déficit em transações correntes, em 2,7% do PIB em 12 meses até fevereiro, vem apresentando recuos substancial ante os 3,6% que prevaleciam em meados de 2025 (Gráfico 1).
O que acontece quando o impulso da política fiscal e do crédito direcionado são excessivos? Resposta: a autoridade monetária se vê obrigada a praticar juros excessivamente elevados para conter a inflação, o que agrava a situação financeira tanto das famílias quanto das empresas.
A autoridade monetária reduziu juros, no ano passado, em reação a uma elevação apenas moderada do desemprego, mas em um ambiente de mercado de trabalho ainda apertado. É possível que a oferta de mão de obra venha a apresentar restrições adicionais em função da agressiva política de combate à imigração. O fato é que o custo unitário do trabalho aumentou 2,4% em 12 meses até o último trimestre de 2025, resultado de salários crescendo 5% e produtividade aumentando 2,2% (Gráfico 1).
O presidente do FOMC (Comitê de Política Monetária do Federal Reserve), expressou que não haverá corte de juros enquanto não houver sinais claros de que a inflação está progredindo rumo à meta de 2% ao ano. Temos chamado a atenção para o fato de que, mesmo antes da alta dos preços do petróleo, tal dinâmica dificilmente se verificaria em 2026.
O quadro inflacionário nos Estados Unidos não é bom. O núcleo do deflator do PIB já tinha mostrado aceleração em janeiro (de 3% para 3,1%). Agora o PPI mostra que as pressões por aumento de preços não se resumem aos serviços impulsionados por salários. Atingem também o segmento de bens, muito provavelmente refletindo o efeito das tarifas (Gráfico 1)
Os dados referentes ao mercado de trabalho nos Estados Unidos trouxeram preocupações em relação ao estado da economia justamente em um momento em que estímulos de política monetária adicionais parecem mais difíceis dado o conflito no Oriente Médio.