Resumo e Conclusões
| O brasileiro é predominantemente conservador. A maioria de nós tende a cultivar valores tradicionais da religião, da família, do pensamento estereotipado sobre homens, e pouco aceitar as minorias (o diferente é tolerado, mas é visto como incômodo no espaço público). Sabemos que os comportamentos e opiniões de uma sociedade são influenciados pela sensação que possuem de segurança em relação à sobrevivência das pessoas: quanto maior o medo, mais dependente se mostra em relação à disciplina imposta pela religião e pelos valores tradicionais[1]. Os Gráficos 1 e 2 mostram como a sociedade tem se enxergado mais à direta e mais conservadora nas últimas décadas. |
- O Brasil realizará, em outubro de 2026, eleições para presidente, governadores de 27 unidades federativas, todas as cadeiras das assembleias estadual e federal, e 2/3 das vagas no Senado.
- Tanto a capacidade de planejar uma campanha quando a de atribuir alguma probabilidade embasada a respeito do resultado esperado, com consequente impacto sobre o cenário macroeconômico, dependem fundamentalmente de uma razoável compreensão do contexto socioeconômico brasileiro, assim como da forma pela qual o eleitor se posiciona (seus principais medos e aspirações).
- No primeiro texto falamos sobre polarização e pessimismo. No segundo tratamos das angústias do eleitor brasileiro. Abordaremos agora o conjunto de valores da população.

Conservadores X Progressistas e Direita X Esquerda.
Análise a ser desenvolvida aqui tem como base os dados do Pew Resarch Center e os resultados publicados em “O Brasil no Espelho: Um Guia para Entender o Brasil e os Brasileiros”, do pesquisador Felipe Nunes. Os primeiros objetivam posicionar o Brasil em relação a outros países, enquanto os últimos proporcionam maior granularidade de informações a respeito de como o brasileiro enxerga sua própria sociedade.
Vamos usar aqui as seguintes definições: Os Progressistas seriam aqueles que defendem que mudanças sociais e adaptações das instituições às transformações da sociedade ocorram mais rapidamente, enquanto os Conservadores preferem processos mais lentos. Ou seja, os segundos tendem a se mostrar mais resistentes às novas ideias, na medida em que se apresentem diferentes dos usos e costumes consolidados ao longo de décadas. Os Progressistas tendem a ver instituições como passíveis de aperfeiçoamento contínuo, e não como estruturas fixas. Já os Conservadores são percebidos como aqueles que valorizam as tradições e normas sociais vigentes, defendendo mudanças apenas graduais, além de cautela diante de novidades.
Em termos de posicionamento no espectro ideológico utilizaremos os conceitos apresentado em Nunes, F, (2025), pp. 142 de 268: a esquerda está associada à defesa da igualdade como forma de atingir o desenvolvimento da sociedade, ao passo que a direita está mais associada à ideia de que existem desigualdades naturais entre as pessoas e que essas diferenças são importantes para o desenvolvimento social.
O Brasil vis a vis uma Amostra de países
O Pew Research Center é um instituto de pesquisa independente localizado nos Estados Unidos, reconhecido por produzir dados confiáveis e estudos sobre opinião pública, condições sociais, economia, tecnologia e religião. A organização não defende posições políticas e se define como factual e não opinativa.
Análise do Pew Research Center, divulgada no dia 05 de março de 2026, examina como adultos em uma amostra de países avaliam a moralidade em relação em diferentes tópicos. A análise tem como base pesquisas representativas em cada nação, realizadas entre 8 de janeiro e 26 de abril de 2025. Consideramos uma amostra composta por 20 países: África do Sul, Alemanha, Argentina, Austrália, Brasil, Canadá, Coréia do Sul, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Hungria, Itália, Japão, México, Países Baixos, Polônia, Quênia, Reino Unido e Suécia.
Os números apresentados no Gráfico 3 da próxima página mostram o percentual de indivíduos que consideram moralmente aceitáveis, ou então nem sujeitos a discussão moral, cada um dos temas listados. Comparamos o resultado do Brasil com a mediana da amostra de países. Quanto menor a aceitação percentual, mais conservadora seria a sociedade. O Gráfico 4 agrega os diversos temas para cada país em um indicador de desvios padrão em relação à média.

É fácil perceber que o grupo analisado parece aceitar com certa tranquilidade temas como uso de contraceptivos, divórcios, homossexualidade, consumo de álcool e, até mesmo o aborto. Já o jogo, a pornografia, o consumo de maconha e os casos extraconjugais são percebidos como menos toleráveis. Em se tratando de uma mediana, é claro que haverá grande divergência entre países. Nos Estados Unidos e no Canada, por exemplo, o jogo é visto como algo bastante aceitável por mais de 2/3 da população.
Quando comparamos os dados do Brasil com as medianas, fica patente o viés de conservadorismo relativo em todos os temas pesquisados. Olhando ponto a ponto, chama a atenção a opinião a respeito do aborto: apenas 23% acham moralmente aceitável, bem abaixo dos 65% da amostra e um pouco melhor apenas do que o registrado pelo Quênia (17%).
O Gráfico 4 atesta que, na média dos temas, o Brasil só não seria mais conservador do que o Quênia e África do Sul (considerando apenas a amostra selecionada). Os dados corroboram tese de que os países da Europa seriam mais progressistas, em linha com a concepção de que a segurança em relação à sobrevivência tende a produzir uma sociedade menos aferrada a religião e tradições. Observe, no entanto, a posição dos Estados Unidos no meio da tabela, apresentando um indicador agregado próximo da média, a despeito do elevado grau de desenvolvimento. Quando comparamos os norte-americanos com os brasileiros, notamos que os primeiros são mais tolerantes em relação a todos os temas exceto homossexualidade e casos extraconjugais.
Como o Brasileiro se Enxerga
Veja a Tabela / Gráfico na página seguinte, que fornece um mapa de valores, atitudes e percepções com base em 19 questões abordando temas como religião, gênero, homossexualismo, assistencialismo e punitivismo. Os dados parecem reforçar que o brasileiro é predominantemente conservador. A maioria de nós tende a cultivar valores tradicionais da religião, da família, do pensamento estereotipado sobre homens, e pouco aceitar as minorias (o diferente é tolerado, mas é visto como incômodo no espaço público).
Deus e família estão em primeiro lugar nas prioridades dos brasileiros. A religiosidade é um traço marcante e parece se tornar mais relevante com o passar do tempo. Entre 1991 e 2022 o percentual de pessoas que se declarava católico caiu de 83% para 57%, enquanto o dos que se autodenominavam evangélicos aumentou de 9% para 27%. As igrejas evangélicas costumam adotar mais práticas seculares (não religiosas), como músicas, festas, atividades de cooperação e filantropia. Os adeptos parecem mais propensos a frequentar os templos (cerca de 80%) do que os católicos em relação às igrejas (ao redor de 65%), o que os torna mais influenciáveis em suas atitudes e opiniões políticas. O crescimento das igrejas protestantes, juntamente com o envelhecimento da população, pode explicar um pouco do aumento do conservadorismo que se observa nas últimas décadas.
Figura 5: % de pessoas que concorda com as respectivas informações afirmações:

A abordagem em relação ao gênero também revela o viés tradicionalista. Uma mulher deve ter filhos, homem não chora e o aborto não é tolerável (como já vimos na comparação com outros países). Não deixa de ser impressionante constatar que cerca de 1/3 da população acredite que a violência contra a mulher seja justificável em caso de traição (42% entre os homens e 30% entre as próprias mulheres). Vimos que os brasileiros afirmam aceitar a homossexualidade (69% na pesquisa Pew). Essa tolerância, no entanto, não se aplica à esfera pública: comportamento “efeminado” ou “beijo gay’ são malvistos por uma parcela relevante da amostra pesquisada.
Além da insegurança que se relaciona ao conservadorismo, também o moralismo religioso explica o punitivismo. O medo fomenta soluções fáceis e percebidas como urgentes: repressão e penas mais duras são vistas como bons remédios para o que se percebe como um mal uso do livre arbítrio.
O aspecto religioso também pode justificar um pouco da visão em relação à meritocracia. A maior parte dos entrevistados entendem que o assistencialismo deve ser restrito àqueles que demonstram algum merecimento. Caso contrário, é bem possível que a maior parte das pessoas deixe de fazer esforços suficientes para mudar de vida.
Conclusão
Procuramos apresentar ao longo de três textos um mapa contendo as percepções, valores, aspirações e medos da população brasileira, que forneceriam indicações a respeito do potencial resultado das eleições em 2026, como função dos diversos assuntos que podem ser alçados a tema principal na agenda de discussão durante período mais crítico para a decisão do eleitor.
A oposição ao governo atual tende a se beneficiar da propensão ao conservadorismo, que tem aumentado nas últimas décadas. A conjuntura também parece favorável a uma alternância de poder em função do clima de pessimismo que aparentemente predomina em vários segmentos da sociedade. A agenda negativa que tem dominado o noticiário, principalmente associada a importantes instituições e atores (juízes, congressistas e empresários) alimenta o medo e a relevância atribuída a alguns temas que estão interrelacionados, como crime organizado, corrupção e violência. Todo isso conspira para criar um ambiente marcado por insatisfação, medo e desejo de mudança.
O cenário para a candidatura situacionista parece mais difícil, mas existem várias alternativas. Do ponto de vista de elaboração de cenários macroeconômicos, é importante atentar para o risco de que, quanto mais desafiador for o quadro, maior seria a propensão do governo atual a adotar posições mais extremadas.
A candidatura incumbente à presidência ainda é percebida pela população como forte em sua capacidade de reduzir as desigualdades (via transferências de renda e tributação sobre os mais ricos) e de gerar empregos. Estes temas podem não ser vistos como os mais importantes atualmente, mas se crescer a percepção de que os ganhos recentes de emprego e renda estariam ameaçados, a pirâmide de prioridades poderia mudar. Devem ajudar o campo progressista as esperadas discussões a respeito de salário-mínimo e jornada de trabalho.
O ambiente institucional está tumultuado. Corrupção e favorecimentos, hoje, parecem tomar o lugar que era do risco de autoritarismo como mal maior a ser combatido em 2022. O momento é de ser contra “tudo o que está aí”. Mas campanha política serve justamente para mudar esse tipo de percepção. Fatos novos, escândalos e conexões ora desconhecidas já mudaram vários jogos eleitorais.
Ao contrário do que indicam as pesquisas de intenção de voto e a maior parte das análises, a oposição parece sair em vantagem. As probabilidades associadas aos diversos cenários dependerão, dos assuntos que se mostrarão mais quentes no decorrer da campanha. Esses podem ser induzidos pelo marketing, por formadores de opinião ou até mesmo serem impostos pelas circunstâncias. Esperamos com nossa análise ter contribuído para estabelecer conexões mais claras entre cada tema e potencial resultado eleitoral.
Referências
Inglehart, R. e Norris, P. Sacred and Secular: Religion and Politics Worldwide. Cambridge University Press. 2004.
Nunes, F. O Brasil no Espelho: Um Guia para Entender o Brasil e os Brasileiros. GloboLivros. Rio de janeiro. 2025.
[1] Inglehart, R. e Norris, P. (2004).



