Brasil – Eleições 2/3: Muito Além das Intenções de Voto – O Que Angustia o Brasileiro

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Resumo e Conclusões

Destacamos a seguir quais são os possíveis assuntos que devem ser mais explorados nas eleições de 2026, e como cada um deles pode ser determinante para o resultado.

Os gráficos 1 e 2 já dizem muito: violência e corrupção cresceram em importância nos últimos 4 anos. Saúde é relevante, mas um pouco menos do que no período da Covid-19, quando certamente contribuiu para a derrota da candidatura incumbente. Democracia, ainda que não mencionada nas pesquisas da IPSOS e do Datafolha, foi decisiva em 2022, mas não deve ter tanta relevância em 2026.

Economia não se mostra um tema tão sensível quanto em outras ocasiões, na medida em que inflação e desemprego já se situam em patamares confortáveis. E poucos parecem estar se importando com ESG / diversidade.
  • O Brasil realizará, em outubro de 2026, eleições para presidente, governadores de 27 unidades federativas, todas as cadeiras das assembleias estadual e federal, e 2/3 das vagas no Senado.
  • Tanto a capacidade de planejar uma campanha quanto a de atribuir alguma probabilidade embasada a respeito do resultado esperado, com consequente impacto sobre o cenário macroeconômico, dependem fundamentalmente de uma razoável compreensão do contexto socioeconômico brasileiro, assim como da forma pela qual o eleitor se posiciona (seus principais medos e aspirações).
  • O primeiro artigo abordou polarização e pessimismo. Trataremos aqui dos temas que mais angustiam os brasileiros. No terceiro texto falaremos mais a respeito de valores.

“Agenda Setting”

“Agenda setting” é um conceito clássico da comunicação que se tornou central também no marketing político moderno. Quem define os temas do debate público tende a influenciar como as pessoas percebem a política. A hipótese central tem como base a famosa frase: “A mídia pode não ser bem-sucedida em dizer às pessoas o que pensar, mas é extremamente eficiente em dizer sobre o que pensar”. Na prática isso significa que, ao escolher quais assuntos recebem mais destaque (corrupção, segurança etc.) os comunicadores estruturam a agenda mental do eleitorado e influenciam as preferências políticas.

Destacamos a seguir quais são os possíveis assuntos que devem ser mais explorados nas eleições de 2026, e como cada um deles pode ser determinante para o resultado. Já vimos o que dizem os Gráficos 1 e 2, na página anterior: violência e corrupção cresceram em importância nos últimos 4 anos. Democracia, ainda que não mencionada nas pesquisas da IPSOS e do Datafolha, foi decisiva em 2022, mas não deve ter tanta relevância em 2026. Economia não se mostra um tema tão sensível quanto em outras ocasiões, na medida em que inflação e desemprego já se situam em patamares confortáveis. E poucos parecem estar se importando com ESG / diversidade.

Segurança Pública

O tópico que deve ser mais relevante em 2026 é, claramente, Violência. Logo de cara é interessante notar que o forte aumento da percepção de insegurança no país vai na contramão das estatísticas disponíveis a respeito do tema. São duas as maiores fontes de dados: o Anuário Brasileiro da Segurança Pública e o Atlas da Violência. Em ambos os casos, não é possível constatar inequívoca piora em homicídios, furtos ou assaltos ao longo dos últimos anos. O gráfico 3, por exemplo, mostra tendência de baixa do indicador de mortes violentas intencionais por 100.000 pessoa no país desde 2017.

É possível, no entanto, que dois fatores estejam contribuindo fortemente para o aumento dos temores em reação à violência: roubo de celulares e noticiário relacionado à atuação de facções criminosas, como o PCC e o CV. De fato, se há algo novo nas discussões envolvendo crime, é a preocupação em relação ao impacto sobre o ambiente de negócios, inclusive nas empresas (Gráfico 4). A percepção de que o crime organizado está cada vez mais presente em diversas esferas de sociedade é generalizada. O candidato que demonstrar mais vontade e capacidade de atuar na área de segurança púbica terá vantagem considerável nas eleições.

Corrupção

Outro assunto que tem ganhado proeminência é a corrupção. De alguma forma é possível que as pessoas entendam que esse tema está relacionado à segurança pública, na medida em que ilícitos envolvendo organizações criminosas acabam resultando também em violência e subornos. Em um ambiente polarizado e de predominante pessimismo as pessoas se mostram mais propensas a atribuir responsabilidades de forma ampla e desconfiar das instituições, em geral.

O Gráfico 5 avalia a percepção de comprometimento no combate à corrupção, por parte dos profissionais de áreas de compliance em uma amostra de empresas. Tanto o Poder Judiciário quanto o Poder Executivo não são percebidos como atuantes no combate às ilicitudes. O Gráfico 6 mostra algo interessante: a confiança nas instituições é muito baixa, mas não piorou grande coisa em relação aos anos 2021/2022.

Democracia

A democracia foi, provavelmente, o tema que desequilibrou as eleições em 2022. Agora, em 2026, não parece que essa questão será considerada entre as mais relevantes. Os julgamentos e punições àqueles que foram considerados golpistas no passado recente pode a manter adormecido o medo associado à perda de liberdades políticas.

Essa é uma das leituras possíveis em relação aos gráficos na página seguinte, que mostram as variações ocorridas nos últimos 30 anos, da percepção dos eleitores em relação à democracia. Do lado direito, a preferência como melhor sistema se mostra dentro da média: nem tanto à euforia relacionada ao Plano Real em meados de 1990 ou ao forte crescimento econômico da segunda metade dos anos 2000, nem tanto às crises de confiança gerada pela chegada da esquerda ao poder em 2002 e durante o “impeachment” da presidente Dilma Roussef (Gráfico 7). Análise parecida pode ser feita em relação à satisfação com a democracia no país: de volta a uma relativa normalidade (Gráfico 8).

Economia

Também parece difícil assegurar que a economia terá papel decisivo no pleito de 2026. Ainda que temas como inflação, crescimento e desigualdade estejam sempre no topo das preocupações dos indivíduos, as atenções do eleitor não parecem voltadas a essa questão.

Pode ser que as pessoas até estejam razoavelmente satisfeitas com a sua condição econômica atual.  Veja por exemplo o chamado índice de miséria, composto pela soma de desemprego e inflação (Gráfico 9). Mas é possível que perceber desconfiança em relação ao modelo, na medida em que muito do impulso sobre consumo rem sido sustentado por endividamento (gráfico 10).

Ou seja, em relação à economia, parece não ser prioridade e para as pessoas, necessariamente, buscar um candidato que venha a resolver um problema relacionado às condições financeiras atuais. O que pode mover o eleitor seria um eventual medo de perder os ganhos obtidos em relação a inflação e desemprego.

É possível apenas especular sobro os motivos que tenham levado as pessoas a reduzir tanto as preocupações associadas aos temas econômicos. Falamos a respeito de endividamento. De fato, pode ser que existam desconfianças em relação à sustentabilidade do modelo de crescimento sustentado por expansão fiscal e de crédito, com inflação contida às custas de juros altos. Outra explicação está relacionada ao fato de que as pessoas tendem a exibir preferência de acordo com uma pirâmide de hierarquias. Na medida em que o medo da alta de preços e de demissão se reduzem na cabeça do indivíduo, este passa a adotar como foco de preocupação outros temas que estão na parte superior do ranking de medos e aspirações.

Referências

Anuário Brasileiro da Segurança Pública. 2025. https://forumseguranca.org.br/publicacoes/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/

Atlas da Violência. 2025.  https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/publicacoes/290/atlas-da-violencia-2025.

Corrupção e Integridade no Mercado Brasileiro. A Percepção dos Profissionais de Compliance. Datafolha e Transparência Internacional. 2024.

Folha de São Paulo 19 dez 2021 pp. A6

Folha de São Paulo 10 mar 2026 pp. A9

IPSOS. Flair Brasil 2026. Eco dos Tempos: como a colisão entre passado e presente moldam o fragmentado futuro do Brasil. Agosto de 2025.

IPSOS (2022). What Worries the World – March 2022

IPSOS (2026). What Worries the World – February 2026 | Ipsos

Cohen, Bernard C. The Press and Foreign Policy. Princeton University Press. 1963.

McCombs, M. e Shaw, D. The Ageda Setting Function of Mass Media. Public Opinio Quartely, v.36, n.2, p.176-187. 1972

Milanovic, B. Global Inequality. A New Approach for the Age of Globalization. The Belkanp Press of Harvard University Press. CA. Massachusetts. 2016

Neri, M. C. Shifts in Brazilian Income Distribution and Wellbeing in the 21st Century. FGV Editora. Rio de Janeiro. 2024;

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