BRASIL – A Crise de Oferta de Mão de Obra é Estrutural

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A demografia, caracterizada pelo envelhecimento da população, tem reduzido substancialmente a disponibilidade de pessoas aptas a trabalhar. Se considerarmos uma PIA formada apenas por indivíduos com idades entre 14 e 64 anos, notamos que o ritmo anual de crescimento da oferta de mão de obra caiu de 1,5 milhão de pessoas no início da década passada para cerca de 350 mil nos últimos anos.
O quadro é positivo para os trabalhadores, mas desafiador para as empresas e para a autoridade monetária.
Dada a prevalência do fator estrutural, é possível que seja bem mais difícil reduzir o sobreaquecimento do mercado de trabalho agora do que era há dez anos.

Introdução

A taxa de desemprego atingiu 6,1% no trimestre encerrado em março de 2026, o nível mais baixo da série histórica para o um primeiro trimestre. O mercado de trabalho está aquecido. São muitas as evidências anedóticas de setores que enfrentam dificuldades para encontrar mão de obra. Estudo do Banco Central do Brasil[1] indica que a rotatividade está elevada e o prêmio médio pela troca de emprego tem oscilado entre 4% e 5% no mercado formal (baseado nos dados do CAGED[2]). A boa notícia é o impacto positivo sobre a qualidade de vida dos trabalhadores, na forma de mais empregos e maiores salários. O problema pode ser a sustentabilidade dessa situação. Pressões inflacionárias excessivas e persistentes, decorrentes de um mercado de mão de obra superaquecido ameaçam o ciclo de crescimento.

Analisamos a seguir as condições de oferta do mercado de trabalho sob a ótica da demografia e da propensão a buscar empregos.  

Demografia

O principal culpado pela queda da oferta de trabalho é a dinâmica demográfica, há tempos caracterizada por redução das taxas de natalidade e aumento das expectativas de vida, que naturalmente resultam em envelhecimento da população.

Os dados mostram um ritmo cada vez menor de aumento da disponibilidade potencial de trabalhadores. O crescimento do total de habitantes no Brasil, ao redor de 0,7% ao ano no início da década passada, não deve superar 0,4% em 2025. Já a variação da população em idade de trabalho (PIT), pessoas acima de 14 anos (segundo a PNAD[3]), terá uma redução mais drástica, de 1,4% para cerca de 0,8% por ano no mesmo período. Isso significa uma oferta de mão de obra adicional de 1,3 milhões de trabalhadores a cada ano, atualmente, contra 2 milhões em 2010. Tudo isso considerando um estoque estimado de 214 milhões para a população e 171 milhões de indivíduos aptos a trabalhar em 2025.

É importante observar que a taxa de crescimento da população em idade presumivelmente ativa é bastante influenciada pela expansão da quantidade de idosos. É possível fazer um exercício assumindo uma PIT formada apenas por pessoas entre 14 e 65 anos. Esse é o conceito normalmente utilizado pelos pesquisadores para estimar as relações de dependência, que consistem em comparações da parcela de cidadãos aptos a trabalhar vis a vis aqueles que predominantemente estudam ou estão aposentados. Nesse caso, o ritmo de crescimento da oferta de mão de obra cairia de 1,3 milhões, para meros de 365 mil por ano.

O gráfico anterior permite também avaliar o impacto da Covid sobre o estoque de trabalhadores aptos ao trabalho. Segundo o IBGE, o crescimento da PIT teria passado de 1,6 milhão de pessoas por ano no biênio 2018-2019 para 1,2 milhões em 2022 e 2026.

Busca por Emprego

Além das questões demográficas, existem fatores que afetam as decisões de entrar ou sair do mercado de trabalho. O sujeito pode decidir não buscar emprego porque prefere investir na carreira através do estudo, por exemplo. Ou abandonar as tarefas domésticas e buscar uma ocupação para aproveitar eventuais oportunidades, em situações de aquecimento e salários atraentes. Por isso, além da reserva potencial de trabalhadores (PIT), composto por todos os indivíduos em idade apta ao exercício de uma profissão, existe também o estoque de pessoas que desejam trabalhar (estão empregadas ou procurando emprego), em contraste com aquelas que preferem desempenhar outras atividades (estão fora do mercado de trabalho, ainda que aptas). O primeiro é o grupo que compõe o que se convencionou denominar população economicamente ativa (PEA). A chamada taxa de participação é formada pela parcela de pessoas realmente engajadas no mercado laboral (PEA) dividido pelo estoque de trabalhadores potenciais (PIT).

Os dados mostram uma redução importante da taxa de participação entre 2022 e 2023, possivelmente associada ao incremente dos programas de transferência de renda. É bem provável que algumas pessoas tenham preferido abandonar o mercado de trabalho para receber o auxílio do governo, o que acaba por reduzir a oferta de mão de obra. O dado mostra uma saída de quase 900 mil pessoas da população economicamente ativa em 2023.

Em 2020 foi instituído o Auxílio Emergencial de R$ 600,00 por mês, que posteriormente se transformaria no Auxílio Brasil. Este, por sua vez, começou com o valor de R$ 400,00 mas acabou voltando aos R$ 600,00 durante as eleições. O governo Lula retomou o nome Bolsa Família em 2023 e elevou o benefício médio para
R$ 670,00 por mês. Com isso, o número de beneficiários passou de 14 milhões em 2019 para 21 milhões em 2023, levando o orçamento anual a subir de R$ 35 bilhões para R$ 170 bilhões.

Ainda que os programas sociais possam ter causado redução da oferta de mão de obra, é possível perceber também que os últimos anos foram caracterizados por recuperação importante da taxa de participação. Tal dinâmica parece ter sido suficiente para colocar o crescimento da PEA dentro da tendência anterior. De fato, o aquecimento do mercado de trabalho tem provocado altas salariais, o que acaba por atrair indivíduos que anteriormente não estavam dispostos a disputar as vagas disponíveis.

Conclusão

O mercado de trabalho brasileiro tem se mostrado apertado, o que provoca pressões inflacionárias e preocupações por parte das empresas em relação à capacidade de atrair mão de obra. Chamamos a atenção para o aspecto demográfico, caracterizado pelo envelhecimento da população, que tem reduzido substancialmente a disponibilidade de mão de obra apta a trabalhar. Se considerarmos uma PIA formada apenas por indivíduos com idades entre 14 e 64 anos, notamos um ritmo de crescimento caindo de aproximadamente 1,5 milhão de pessoas por ano para meros 350 mil.

São grandes as indicações de que os programas de transferência de renda contribuíram para provocar redução adicional da oferta de trabalho. Mas os dados mais recentes sugerem também que o aumento do rendimento pode ter sido suficiente para recolocar a evolução da população economicamente ativa em ritmo semelhante ao do histórico recente.

Tudo isso sugere um quadro desafiador para a oferta de mão de obra ao longo das próximas décadas. As limitações estruturais, associadas à demografia, parecem mais importantes do que aspectos conjunturais, como Bolsa Família, Covid ou a própria conjuntura econômica de curto prazo.

O quadro é positivo para os trabalhadores, mas gera preocupações em termos de inflação. Dada a prevalência do fator estrutural, é possível que seja bem mais difícil reduzir o sobreaquecimento do mercado de trabalho agora do que era no início da década passada.

Referências

Banco Central do Brasil (2025a). Impacto da Educação e da demografia em indicadores do mercado de trabalho. Relatório de Política Monetária. Setembro de 2025.

Banco Central do Brasil (2025b). Trocas de emprego e prêmio salarial. Relatório de Política Monetária. Setembro de 2025.

Schymura, L.G. (2025a). Mudanças etárias e educacionais indicam que mercado de trabalho está menos aquecido do que parece. Carta do Ibre. Outubro de 2025.

Schymura, L.G. (2025b). Bolsa Família ampliado reduz oferta de trabalho, mas pode ser aperfeiçoado.


[1] Banco Central do Brasil (2025a).

[2] Cadastro Geral de Empregados e Desempregados.

[3] Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios.

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