Tatiana Pinheiro, PhD em Economia (FGV-EESP), Consultora e pesquisadora econômica
Publicado no AE Broadcast em 28/agosto/2026
Pela terceira eleição consecutiva, o Brasil volta a discutir duas visões de país que, em essência, conhecemos desde 2018. De um lado, o PT mantém o Estado como indutor do desenvolvimento. Do outro, o bolsonarismo defende um Estado menor e maior protagonismo privado. Mudam slogans e circunstâncias, mas o núcleo do debate permanece.
Há, porém, convergências. A palavra “segurança” aparece 52 vezes no programa do PT e 56 no do PL. Não por acaso: segundo a pesquisa Datafolha de maio, 12% dos entrevistados apontaram a segurança como prioridade para o próximo presidente, atrás de saúde e educação.
Lula concorre à reeleição com um programa predominantemente de continuidade. Uma comparação proposta a proposta das últimas três eleições indica que cerca de 70% das políticas apresentadas em 2026 têm antecedentes substantivos nos programas petistas de 2018 ou 2022. Considerei como continuidade propostas com o mesmo objetivo ou mecanismo básico, ainda que rebatizadas, ampliadas ou reformuladas. Investimento, SUS, educação pública, valorização do salário-mínimo, política industrial e transição ecológica são agendas antigas. Até novas marcas têm raízes anteriores: Novo PAC e Nova Indústria Brasil (NIB) atualizam agendas de infraestrutura e reindustrialização.
Há novidades: Política Nacional de Cuidados e Cuidotecas, consolidação do Pé-de-Meia, prontuário único e IA na saúde. Na segurança, a mudança é mais substantiva, voltada ao enfrentamento das facções, à asfixia financeira do crime organizado e à maior coordenação federal.
O problema dos programas de continuidade é conhecido: governos detalham seus acertos, mas raramente transformam seus erros em propostas de correção. Lula destaca arcabouço fiscal, reforma tributária, NIB e PAC entre as realizações. Mas é bem menos preciso sobre como estabilizar a dívida se crescimento e receitas decepcionarem ou como enfrentar a rigidez das despesas. A autocrítica tem pouco espaço.
Flávio Bolsonaro faz o movimento oposto. Seu programa contém mais propostas individualizadas e novas marcas. Pela mesma metodologia, aproximadamente metade das propostas de 2026 tem raízes nos programas de Jair Bolsonaro de 2018 ou 2022. A continuidade está no núcleo econômico e ideológico: Estado menor, disciplina fiscal, liberdade econômica e segurança mais dura. Também aqui há pouca autocrítica: a defesa da disciplina fiscal convive com a ausência de uma discussão sobre o abandono do teto de gastos e a pedalada dos precatórios durante o governo Bolsonaro.
E novidade de embalagem não significa novidade de política. O “Tesouraço” reformula a agenda de redução do Estado de 2018; o “Brasil sem Fila” aprofunda a digitalização dos serviços públicos de 2022; concessões, desburocratização e liberdade econômica atravessam as três eleições.
As novidades estão nos instrumentos: fim da reeleição, revisão da reforma tributária, reforma do Judiciário, Muralha Brasileira, Banco da Prosperidade, novas políticas para energia e minerais críticos, além de Central da Mulher, ClarIA e voucher-creche.
Flávio também deixa perguntas sem resposta. Promete reduzir impostos, gerar superávits e estabilizar e depois reduzir a dívida, mas não quantifica a economia do Tesouraço nem demonstra se os cortes seriam suficientes. A falta de quantificação também ecoa 2018, quando a venda de imóveis federais era apresentada como instrumento relevante para reduzir a dívida. Na segurança está a maior mudança: a agenda mais gerencial de Jair em 2022 dá lugar à redução da maioridade penal, endurecimento de penas, expansão prisional e reconhecimento facial em larga escala, sem estimativas de seus efeitos sobre a criminalidade.
Quem governa apresenta o passado como razão para continuar; quem desafia precisa convencer que mudar é necessário. Em 2022, Bolsonaro era o incumbente e prometia continuidade; Lula, na oposição, oferecia reconstrução. Em 2026, Lula promete aprofundar o que fez e Flávio oferece mais mudanças.
E, apesar das diferenças, os dois programas compartilham a mesma fragilidade: faltam propostas mais robustas para a governança do gasto público, com revisão de políticas e avaliação de custo-benefício, além da quantificação das medidas necessárias para assegurar a responsabilidade fiscal.
Por trás das novas marcas, o Brasil continua discutindo questões que já dividiam as opiniões em 2018: tamanho do Estado, liderança do investimento, equilíbrio entre responsabilidade fiscal e políticas sociais e prevenção versus repressão na segurança. Enquanto isso, o futuro próspero fica para depois.


