Cenário internacional
A retomada das tensões no Oriente Médio provocou forte valorização das commodities energéticas, com altas expressivas do petróleo e da gasolina. Entretanto, o choque inflacionário foi, até o momento, menor do que inicialmente esperado. Os preços dos alimentos permanecem relativamente estáveis, enquanto o minério de ferro recua diante da fraqueza da economia chinesa.
Nos Estados Unidos, os investimentos em inteligência artificial continuam sustentando a produtividade, os lucros corporativos e a valorização dos ativos. A economia desacelera de maneira moderada, mas o mercado de trabalho ainda apresenta resiliência. Por isso, o Federal Reserve não estaria sendo pressionado por uma deterioração significativa do emprego.
O principal problema norte-americano é a credibilidade do Fed. As mudanças na comunicação e as dúvidas sobre sua função de reação fizeram o mercado elevar a probabilidade de novos aumentos de juros. A reprecificação ocorreu principalmente nos juros reais, e não nas expectativas de inflação. Embora o núcleo da inflação tenha recuado, ele continua acima da meta.
Na Zona do Euro, o Banco Central Europeu demonstra maior disposição para combater os efeitos inflacionários dos choques de oferta. Mesmo com crescimento fraco e inflação relativamente baixa, a apresentação considera possível uma nova elevação dos juros.
A China enfrenta desaceleração estrutural, crise imobiliária, demanda interna fraca e inflação muito abaixo da meta. O crescimento econômico tornou-se mais dependente das exportações, enquanto a persistente queda dos preços ao produtor faz com que o país exporte pressões deflacionárias para o restante do mundo.
As bolsas asiáticas passaram por uma realização de lucros depois de fortes altas acumuladas no ano. O Japão enfrenta enfraquecimento do iene e perspectiva de continuidade da elevação dos juros, enquanto a bolsa sul-coreana permanece bastante sensível ao ciclo global de semicondutores e inteligência artificial.
Cenário brasileiro
No Brasil, a atividade econômica apresenta apenas uma desaceleração gradual. O crescimento do PIB deverá perder força nos próximos anos, movimento considerado necessário para que a inflação se aproxime da meta de 3%.
A economia ainda opera acima de seu potencial, o que diminui sua capacidade de absorver choques externos, especialmente os provenientes do petróleo e da taxa de câmbio. Ao mesmo tempo, emprego, massa salarial e estímulos fiscais continuam sustentando o consumo no curto prazo.
O elevado endividamento das famílias, o forte comprometimento da renda e as taxas de juros altas devem manter pressão sobre a inadimplência e sobre o custo do crédito. No setor público, o crescimento das dívidas bruta e líquida é apontado como uma fonte relevante de preocupação.
O Copom enfrenta um desafio de credibilidade. Leituras recentes de inflação melhores do que o esperado reduziram parte do impacto negativo da comunicação da última reunião. Ainda assim, as expectativas continuam elevadas porque o mercado acredita que o Banco Central e o governo poderão fazer menos do que o necessário para conduzir a inflação à meta.
As projeções apresentadas indicam desaceleração do PIB, queda gradual da inflação e redução lenta da Selic. A dívida bruta deverá superar 82% do PIB, e o câmbio aparece como a variável central do cenário: uma piora da aversão global ao risco ou da percepção sobre o risco fiscal brasileiro poderia desorganizar as demais projeções.
Mercados e estratégia de investimentos
Os juros elevados proporcionam carregamento atrativo e proteção relativamente barata, tornando difícil superar os investimentos pós-fixados em termos ajustados ao risco.
Apesar disso, o Ibovespa acumulava alta de 10,5% no ano até o início de agosto, enquanto o real havia se valorizado 7,2% em relação ao dólar. A estratégia sugerida permanece defensiva, com mais de 70% da alocação em renda fixa e mais de 40% em ativos pós-fixados.
Os fundos multimercados perdem espaço nesse ambiente, enquanto a renda variável deve permanecer com participação moderada, devido à dependência do cenário eleitoral e fiscal.
Principais riscos
Os riscos centrais são:
- impacto das eleições sobre o câmbio e sobre o custo do futuro ajuste fiscal;
- juros longos globais permanecendo elevados por mais tempo;
- novo choque inflacionário provocado por geopolítica ou fenômenos climáticos;
- excesso de investimentos e de posicionamento em ativos ligados à inteligência artificial;
- forte demanda de financiamento das grandes empresas de tecnologia, pressionando spreads de crédito e os rendimentos dos títulos públicos norte-americanos.
Síntese
Os fundamentos econômicos continuam relativamente sólidos, mas o cenário tornou-se mais desafiador devido à reprecificação dos juros globais, às incertezas sobre a credibilidade dos bancos centrais e aos riscos fiscais e eleitorais brasileiros. Nesse contexto, a apresentação privilegia uma postura defensiva, com forte exposição à renda fixa e participação moderada em renda variável.




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